segunda-feira, 13 de maio de 2013

Você estuda cinco anos, sete; estuda muito; lê muito, de tudo; pesquisa; dedica-se; procura cumprir aquilo que escolheu fazer na vida da melhor forma possível. Acredita que as pessoas possam se desenvolver fora da lógica mainstream, promove reflexão, provoca. Norteia, em vez de simplesmente expor. Encara sua missão como aquela ajudará indivíduos a vencer a meritocracia, vencê-la em duplo sentido, superar a questão, questioná-la. Você realmente acredita que a formação de um indivíduo parte do pressuposto de que é necessário se questionar, questionar o mundo em que se vive. Sabe que é importante saber as ciências naturais, as ciências humanas e as linguagens, sobretudo porque ou se sabe um pouco de tudo ou não se sabe nada. Tudo se interliga. Mas a dificuldade que se encontra dia a dia é fazer com que as pessoas compreendam que conteúdos sem reflexão são só conteúdos, e reflexão sem conteúdo também não é nada, desola. Niilismo por niilismo, chega-se num momento em que isso te convence do fracasso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Crise


Ainda acredito que a maior crise atualmente tem sido aprender a lidar com a ruptura de padrões. A verdade é que é muito mais simples segui-los do que rompê-los. Entretanto, percebo que crises fazem parte no caminho para mudanças efetivas. Na medida do possível, tento me sentir mais à vontade com estas possíveis mudanças. Tenho plena consciência de que dificuldade inicial em reconhecer-se já faz com que estejamos anos luz àqueles que continuam seguindo a lógica conservadora e reacionária. 

Certa vez, vi a melhor definição para o pensamento reacionário. Cito Alfredo Bosi, no livro O ser e o tempo da poesia, "Reacionária é a justificação do mal em qualquer tempo. Reacionário é o olhar cúmplice da opressão. Mas o que o move os sentimentos e aquece o gesto ritual é, sempre, um valor: a comunhão com a natureza, com os homens, com Deus, com a unidade vivente de pessoa e mundo, o estar com a totalidade". 

Isso diz muito sobre a sociedade que comungamos. Comunhão total das mazelas. São raras as vezes que consigo conversar com alguém sem sentir qualquer mal-estar. Os pensamentos que impregnam as pessoas são cheios de conservadorismos que oprimem e reprimem o próximo. A liberdade de expressão é cerceada ao passo que os pseudovalores morais são impostos pelo status quo. A questão é que a predominância da boa moral é de sobra apenas quando lhes convém. Isto porque, para mim, não existe nada mais imoral do que ver tantos seres ao léu e não sentir a menor dor na consciência. Imoral para mim é apedrejar um casal de homens ou de mulheres que simplesmente se amam. Imoral para mim é tratar a mulher como um ser inferior. Imoral pra mim é o desrespeito ao meio ambiente, ao cenário urbano, às outras pessoas, a começar por aquele papel de bala lançado do Mercedes do cidadão.

São tantos os absurdos que presenciamos no dia-a-dia que fico me perguntando até que ponto o mundo resistirá. Civilidade é artigo de luxo. É preferível questionar as formas de se amar alguém, o gênero a que se ama, a cor de quem se ama. Para explicar tais indagações, digo-lhes que Caetano acertou em cheio quando em certo texto "Americanos" mencionou que aqui embaixo o que impera é a indefinição. Não é possível descartar a diversidade cultural e étnica presente em nosso país. Assim, deveria ser preceito básico o tal espírito de comunhão. Só que quando falo em comunhão, penso em algo saudável – a priori, devoto preocupação e respeito ao meu semelhante.

O meu drama consiste na ilusão, já que, desde o exemplo mais banal, como o vizinho que coloca o som no último, até o mais complexo, como o político que enfia a mão nos cofres públicos e se esquece de que aquele dinheiro deveria ser destinado a políticas públicas, tudo parece desandar. Seguindo este raciocínio, acabo detendo-me ao âmbito localista e sei que o meu país já apresenta o diagnóstico de que qualquer hora morrerá infartado. Muitas dores para pouco coração.

Coração de veias abertas que já não aguenta mais o reacionarismo corrosivo no seio da sociedade. Falta de liberdade de expressão, de sinceridade, de preocupar-se com a própria felicidade sem ter de pensar no julgamento dos outros, de lutar pela dignidade das pessoas, de olhar para o outro com complacência, de parar de pensar que você é o umbigo do mundo, de esquecer a lógica mesquinha de que seus amigos e sua família estão acima de todo o resto.

A verdade é que estou cansada de questionar tudo e parecer um ser de outro planeta. Está tudo diante do nosso nariz, mas ninguém quer enxergar. Sozinha, não posso mudar o mundo. A minha missão seria ladrilhar caminhos para uma possível revolução, mas nem mesmo os mais jovens querem saber do próprio país. Não se interessam, simplesmente. Qualquer aula que possa esboçar um quadro de representação da realidade histórica ou atual parece uma chatice. Qualquer tentativa de apresentar manifestações artísticas como representativas formas de interpretação do país ou mundo é perda de tempo. Não querem saber. Dane-se.

Carlos Drummond estava certo quando disse que não queria ser poeta de um mundo caduco. Está todo mundo completamente caduco. Perderam a sensibilidade, o interesse, a capacidade e as ganas de enxergar, de lutar. A alienação ganhou completamente a parada. Não sei como é possível contribuir para que mudanças se efetivem deste modo. Você tenta, mas só fracassa. Conhece meia dúzia de pessoas que pensam de maneira parecida, que também se sentem fracassadas. Você se mata, dia a dia, para adquirir melhor percepção de mundo. O intuito é retransmiti-la. Ideias. Bom senso. Exercício de cidadania. Princípios de civilidade. Difusão cultural. Informação por vias imparciais. Tudo balela. Não rola o menor interesse. Vejo um mundo banal versus um mundo real.

O que adianta se envolver com um projeto quixotesco, não é mesmo? Até mesmo as pessoas que dizem te respeitar e amar não confiam nas suas ideias. A crise se acentua no momento em que você percebe ou que está se afastando das pessoas ou que as pessoas estão se afastando de você. Neste momento, não vê mais afinidades. O mais complicado na vida é quando você se dá conta que as afinidades são mais importantes que o amor. Porque, na verdade, alguns sentimentos devem caminhar de mãos dadas. Difícil assumir para si mesmo que acabou, mas acabou porque a crise permite a consciência de que você não é a mesma pessoa - dia a dia a mudança se opera. Das duas, uma: ou você se acomoda ou evolui. Assumo as dores, quis seguir meu caminho.

Parece coincidência de quem é viciada no que estuda, mas muitas vezes me sinto no conto "O alienista", pensando que todos estão loucos, quando, na realidade, o problema sou eu. Quem sabe a solução não é me trancafiar num manicômio? Quiçá, assim, resolvam-se as crises e as angústias. Vai ver que Machado se sentia da mesma forma, e eu não duvido que atualidade dele consista em compartilhar das mesmas angústias que nós vivemos dentro das singularidades de nossos respectivos tempos. Viagem demais. Desabafo total. Parei por aqui.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Olhos bonitos

O dia que os olhos mais lindos do mundo cruzaram os meus. Foi em 2008, ainda acreditava em mil coisas que diziam respeito a padrões sociais impostos. Sim, já acreditei nisso e em toda essa balela hipócrita pregada por essa sociedade ridícula em que a gente vive. Apaixonei-me por alguém que parecia diferente disso tudo, mas ainda não me conhecia. Havia muito por descobrir. Seria uma história que perduraria no inconsciente de cada qual. 
O que pretendo versar agora diz muito mais respeito a mim e meus anseios, mas certamente devo a esses olhos lindos, que não sei, ao certo, até quando os poderei fitar. Sei que eles também me fitam, e resplandecem sensações que jamais vivi. Às vezes meu super-ego adverte: não viaja. O fato é que se trata de uma história, uma situação e um sentimento que sinalizam para uma direção completamente fora do meu controle, do nosso controle. Mas por que controlar sensações, não é mesmo? Estou adepta ao sensorialismo exacerbado, às novas experimentações. Para isso: quebro padrões, rasgo protocolos, nego teorias, viro a casa de pernas para o ar. A bagunça em que minha vida se encontra se justifica. Quero essa confusão. Quero sentimentos difusos. A estabilidade que muitas vezes permeou minha existência era mais angustiante do que tudo. Quis sair da casa dos meus pais e encarar o mundo. Escolhi uma vida não muito convencional. Desejei ser livre. Liberdade de escolher, de me expressar, de abraçar o mundo, de fitar os olhos mais bonitos que já vi. 
Cada um sabe o que sente e o que deseja. Não sei muito bem para onde caminho, no final das contas. Mas sei que vou chegar a algum lugar. Cansei de ter de ficar planejando o próximo passo. A vida flui. Fácil para mim que sou livre ser tão inconsequente, mas eu gosto. Reconheço-me assim. Livre. Sigo a brisa matinal. As folhas voando pelo chão. E os olhos castanhos que insistem também em me fitar. 
Passaram-se quatro anos desde que tudo começou. Não sou mais a mesma menina. Sou mulher. Os anseios que havia no meu âmago naquela época se libertaram. Na contiguidade do meu corpo, percebi a falta que me colocaria definitivamente em contato com meu mundo simbólico. Era louca até então e não sabia. 
A neurose fez com que eu me descobrisse. Estou liberta. Repleta de dúvidas como qualquer outro ser humano. Entretanto, encontro-me nas minhas atitudes, na minha firmeza e na decisão ao encarar a vida como melhor convir. Sinto-me viva. Reconheço-me. Nasci num microcosmo onde sempre parecia fora de lugar. Tentei me inserir, não consegui. Aquele ali não era meu espaço. Precisava me encontrar. Tudo parece mais nítido agora.
Os olhos que insisto mencionar surgiram depois de um ano longe da casa dos meus pais. Pouco mais. Estava numa fase de experimentar algumas sensações, mas ainda cerceada psicologicamente pela boa moral e bons costumes que sempre, ironicamente, estiveram presentes na minha formação. Estudei a vida toda em colégio católico, de freiras. Na adolescência fui reprimida por arrumar namorados. O sonho dos meus pais, que engravidaram aos 18 e 23 anos, respectivamente, era que sua filha, fruto desse amor puro, casasse virgem, na Igreja Católica, de branco, véu e grinalda. Eles temiam que eu sofresse com mal dizeres sobre minha pessoa, como o que havia ocorrido com eles.
Por sorte, escapei às tradições, conquistei meu espaço e desconstruí boa parte desses conservadorismos presentes no discurso de ambos. Hoje, eles conhecem muito de meus posicionamentos. Tenho orgulho pelo fato de meus pais compreenderem muito do que penso e me darem abertura para certos diálogos, que seriam impensáveis anos atrás. A evolução nesses quase seis anos foi realmente assustadora.
Tenho procurado a cada dia atender às demandas da minha existência e promover um autoconhecimento e reconhecimento das minhas ideias e da minha personalidade. Logicamente não sou uma pessoa perfeita. Possuo infinitos defeitos, que procuro, na medida do possível, contornar. Assumi-los já tem sido grande passo.
O fato de aparentemente ter estado fadada à hipocrisia moral nunca foi tranquilo de lidar. Passei por muitos perrengues. Levou tempo e disposição para desconstruir certos ideais e apelos imbuídos na minha mente. Até hoje me pego pensando de uma maneira que imediatamente estranho. Contradições que não deixam de ser aparentes. No entanto, penso que oscilar é uma constante para que nos constituamos enquanto indivíduos. Ninguém está cem porcento do dia, da semana, do mês, do ano pensando ou agindo de uma única maneira, mantendo as mesmas opiniões ou preferências. 
Agora, vocês devem estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com os olhos bonitos, com a minha paixonite aguda, com 2008. Simples: desde aí as coisas começaram a mudar mais que radicalmente, inúmeros eventos aconteceram. Quatro anos mais tarde: a sensação dessa época ressurge, só que mais acentuada e fazendo mais sentido, apesar de não se tratar de algo simples.
Os olhos pelos quais me apaixonei, que não são somente olhos: mas também pernas e lábios macios, funcionaram como marco na minha vida. Não foram a razão, mas auxiliaram bastante no processo de demarcar fases, sensações e mudanças efetivas na minha existência.
A razão pela qual me apaixonei  por eles ainda é desconhecida. Mesmo porque não consigo conceber razões para se amar ou não alguém; e a forma pela qual os relacionamentos se dão me convence cada dia mais disso. Não sei porque o amo. A situação não é simples. O fato é que esse moço, de olhos lindos, de pernas e lábios macios, tem um coração encantador, um pensar que me atrai - e isso não é uma peculiaridade. O diferencial é simplesmente a razão de despertar sentimentos tão adormecidos em mim - adormecidos desde que me conheço por gente.
Parece clichê, mas a revolução se deu num plano completamente extenso. Não me reconheço às vezes, ou melhor: reconheço-me demais. Nunca estive tão à vontade e em paz comigo mesma. Apesar da angústia que é se autoconhecer e conseguir definir as sensações e tudo mais, faz-me bem numa medida que não consigo explicar. Vontade de sair pelo mundo em busca de novas motivações, de sequestrá-lo para seguir comigo. Não sei dizer. Seria uma linda história de amor - mas não sei se ainda acredito em histórias de amor, sobretudo pela medida em que agora me conheço e pela dificuldade que reconheço em amar alguém - amar com todas as forças, a ponto de renunciá-la.
Por que renunciar? Sinto que apesar de toda a minha liberdade de espírito e de padrões, ainda sou muita humana. Acredito que para viver um grande amor a liberdade tem de ser a mais plena possível. A plenitude seria renunciar exclusivismos e o desejo de constituir uma vida a dois, com filhos, cachorro e papagaio. Acontece que, apesar de tudo que narrei até aqui, anseio - ainda que daqui dez anos - tudo isso. E os olhos castanhos, que despertaram tudo, já não poderiam despertar nada. Os planos que fizemos foram em momentos extasiados pela novidade de quem acabou de se conhecer de verdade - corpos e almas sedentos pelo novo. No entanto, era fugaz: reconheceram-se e perderam-se novamente. Não há chance. Vidas demais para histórias de menos. 

sábado, 21 de julho de 2012

Sensações

Angústia. Coração apertado. Saudades. Decepção.Talvez fossem sinais de que as coisas não iam muito bem. Felizmente, bastou ver um pouco de arte, de céu azul, de pássaros voando para tudo ficar lindo. Vimos representações daquilo que acreditamos, nossos companheiros de análise desse mundo que só desanda. Depois disso, caminhamos pelo parque num dia majestoso - céu mais celeste, impossível. Tomamos mate à margem da fonte que jorrava harmoniosamente enquanto crianças corriam por ali. Deitei-me de frente para o céu, encarando-o, deparei-me como uma paz há pouco perdida entre acontecimentos que deveria considerar deveras irrelevantes, mas que ainda me tiram do sério. Apesar de, a paz contagiou o espírito, me quedei ali, inerte, mirando cada pássaro que passava sobre minha cabeça. O sol brilhava intensamente, mas não incomodava. Tudo agradável. Vários minutos de suaves reflexões, de paz, de contato com a terra, com a grama fresca. Aquele momento fora tudo que precisava para enterrar todo o mal-estar que me obscurecia. Intimidade com natureza, com natural, com o interior, qué sé yo? Instantes de claridad, vida que tomou sentido. Sensações. Me gustó.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Blá

Eis que ressurjo. Faz-me mais que bem escrever. Não sei porque resisto ao ofício. Antes parecia bastante tranquilo. As amarras da Academia me deixou insegura. Pois bem, certa hora me livro disso tudo. Porque, afinal, se escolhi fazer isso para o resto da vida (?), de alguma forma tem que fluir.
O que dizer hoje? Que sem minhas crises não seria a mesma pessoa. Questiono cada ato falho (e não são poucos). A cada hora que passa, minha tão frágil existência, meu potencial, minhas escolhas, minha capacidade de sentir, meu presente. Dava pra levar uma vida mais singela e vazia, mas que culpa tenho se chegou num ponto que: parasito ou funciono. 
A verdade é que ando bastante perturbada. A vida é curta demais pra tantas reviravoltas, e cada dia é uma surpresa. Busco as faltas do passado, em todos os âmbitos. O problema é que nem sempre tem cura ou solução. Pergunto: e se não existir remédio? Contar até dez ou respirar no saco de papel certamente não vai amenizar o perigo que é viver. O trilhar de caminhante angustiado, que exita, pára, olha pra trás, pensa, sente, tenta seguir, não tem sido dos mais tranquilos. Óbvio. Entretanto, prefiro assim, que parta de mim.
Vejo tanta gente inconveniente por aí, metendo o bedelho na vida alheia - na crise alheia - deixa-me com meus intuitos, ora! Por acaso quero teorias novas para tratar do meu bel prazer, daquilo que acredito? Dispenso. Já fiz a minha escolha, e não foi difícil - o coração geralmente grita nessas horas. Desprezo esse discurso intrometido de quem quer desconstruir minhas crenças, meus intuitos. Desconstrução só valeria no apreço que tenho em arrumar confusão pra vida. Do resto, muito obrigada.
Por fim, que fique cristalino: ainda que às vezes não me sinta capaz, não volto atrás, sei que minha sensibilidade guiará. Afinal, confio no que quase ninguém mais hoje acredita - naquilo que nega o que todo mundo valoriza. Desejo intensamente que essa negação permeie pra sempre meu norte, configurando uma visão menos alienada de mundo - e mais: possibilite a cada instante meus ideais libertadores desse statu quo meia-tigela que rege nossa sociedade. Sem mais.

domingo, 20 de maio de 2012

Retorno

Depois de mais de um ano sem postar absolutamente NADA, acho que talvez agora seja o melhor momento. Aquele último post deu pano pra manga, isso é certeza. MUITA coisa rolou ano passado, passei muita raiva, coração e cabeça se desordenaram ao ponto de eu pensar que tinha pirado. Felizmente, depois de muita terapia, de psiquiatra, de antidepressivo, a vida tá mais amena. Na verdade, completamente diferente, de um modo que eu queria há anos. Apesar dos despropósitos e ciladas do destino. Estou, enfim, muito bem. Fazendo o que gosto (apesar das crises), com um novo amor (apesar das incertezas) e descobrindo a cada dia como é importante discernir amizades de interesses (apesar das decepções). Tudo muito clichê, mas é o que tem pra hoje. Não quero ser muito prolixa a respeito das circunstâncias, quero voltar a postar nos momentos de crises, e tentar ver o que de bonito e poético pode sair desse existencialismo capenga. Por hoje é isso. Amanhã, talvez, tem mais.

domingo, 20 de março de 2011

Entre alguns atos

I

- Oi, com licença. Me dá um cigarro?
- Sim, claro.
E conversaram por meia hora com aqueles simpáticos rapazes.

Distraídas caminhavam pela calçada...
- Oi, tudo bem? - disse ela tímida e o abraçou.
- Oi, e aí? - disse ele incomodado.



O incômodo é algo que não deixa as pessoas livres de insegurança. É justamente a tradução desta. E ela estava distraída, livre em suas atitudes e pensamentos, não esperando qualquer importância. Saiu para ouvir música e dançar, tomar algumas cervejas, jogar conversa fora com as amigas. E assim o fez.

II

Entretanto, reencontraram-se no saguão:
- Oi, e aí? - diz ele não compreendendo instantes antes.
E puxou papo, e conversaram. Caminharam juntos, esclareceram os caminhos. Os último atos dessa grande peça. Tudo parecia dissolvido, mas não. Estavam ali as duas almas esperando o gran finale. É como numa peça, mas os desconcertos são difíceis de se prever. Conversavam, olhavam-se, miravam-se como num jogo de olhares infinitos. Palpitação, talvez.


III

De repente, os olhares se aproximaram, e os corpos, e as mãos, e os lábios. Tudo virou uma coisa só. Ao tocar os lábios se sentiram. Respirações leves se encontrando, convivendo ali, por alguns minutos (ou muitos). A cintura apoiada, pontas dos pés, mãos entrelaçadas, as mãos roçando as faces.



E foi ali que descobriu o terrível equívoco. A embriaguez sutil seria mais viável outrora e teria feito daquele momento único, mas foi só um remake do trágico. E agora?
Restava continuar tentando que entre remakes, ou não, eles encontrasse o verdadeiro sentido dos atos. Faltavam borboletas no estômago e pernas bambas, mas elas se foram há pouco. O que não sabe é se podem voltar. Entre os anos 50 e 60, pararam num tempo particular. O que restara daquele coração provia de outros tempos... Assim, seguiam solitários e desencontrados. Who knows?